sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Em busca de um Teatro Popular e Comunitário

A definição de teatro, no geral, é o exercício que envolve a produção de textos dramatúrgicos, o ensaio de participantes, a produção e a apresentação de peças. Outro significado destina-se aos prédios e aos espaços alternativos aonde são representados espetáculos.
No início o teatro era uma manifestação do povo, feita pelo povo e para o povo. Em seguida, foi apossada pela classe dominante e tornou-se acessível a uma elite. Hoje, felizmente o teatro retorna às ruas, fábricas e entidades diversas contribuindo para a acessibilidade da diversidade social e cultural.
Em resistência a idéia de um teatro dominante está uma luta genuinamente popular. Popular, não na idéia de lotação dos edifícios teatrais e arte covardemente doutrinária, mas popular na concepção de “arte do povo, pelo povo e para o povo”.
Um dos maiores representantes deste lema é o grupo Teatro Popular União e Olho Vivo, que é considerado, segundo Augusto Boal (1931-2009), o mais antigo das Américas. Fundado em 1966, o TUOV (Teatro Popular União e Olho Vivo), completa em 2010, 44 anos de resistência a dominação cultural e continua lutando pela democratização da cultura tendo como objetivo fundamental: levar peças de teatro às comunidades periféricas e fomentar, por meio do debate e troca de experiências, a contribuição para a emancipação crítica e cultural das comunidades.
Uma das principais bandeiras de luta do Teatro Popular é resistir contra a imposição cultural de potências que querem dominar culturalmente países em desenvolvimento, como o Brasil. Este tipo de teatro diverge da televisão e do cinema e até mesmo do chamado “teatrão”, por ser sinônimo de transformação e levar ao público mensagens de liberdade e justiça social. O Teatro Popular promove um trabalho sério, de estética inteligível e de custo – quando houver - acessível ao povo.
O maior exemplos dessa luta foi o período da repressão militar, de 1964, em que o teatro foi um importante instrumento de resistência. Representantes como Plínio Marcos, Gianfrancesco Guarnieri e Dias Gomes foram fundamentais na luta contra a imposição da ditadura, em contrapartida o sistema estabeleceu uma censura implacável.
Ainda hoje, o Teatro Popular resiste à imposição dos espetáculos imperialistas, que tiveram êxito em Nova York e combate a tese colonialista de que “se é bom para os Estados Unidos, é bom para o Brasil”. As produções invasivas são montagens suntuosas que não tem nada a ver com a realidade cultural, com a vida, as angústias, necessidades e alegrias do povo brasileiro.
Outra fonte inesgotável de resistência do Teatro Popular é desmistificar a idéia de que teatro não é para o povo, mesmo sabendo que a cultura é um bem inacessível às classes populares. Exemplo dessa segregação está na localização da maioria das salas localizadas nos grandes centros urbanos, e mesmo onde elas existem são centralizadas, impossibilitando o acesso do povo que reside na periferia e que depende de um sistema caótico de transporte público e seus horários problemáticos, o alto custo dos ingressos, sem contar o teor “intelectualizado” da maioria das encenações. Todos esses empecilhos procuram transformar o teatro em uma arte de elite.
Por não fazer uma arte do Sistema, o poder público impõe restrições para os grupos de Teatro Popular que encontram dificuldades para se manter. Um dos recursos utilizados pelo Teatro Popular União e Olho Vivo para driblar esta situação é a técnica Robin Hood (personagem que tomava dos ricos e distribuía aos pobres). Esta técnica possibilita ao TUOV vender o ingresso a um bom preço para clubes, prefeituras e secretarias de Cultura e esse dinheiro é investido nas apresentações nos bairros e na manutenção do grupo, na construção de cenários, figurinos, transporte, alimentação e iluminação; garantindo, assim, a acessibilidade dos moradores das comunidades carentes ao teatro.
Outro empecilho para a manutenção de grupos de Teatro Popular são as leis de incentivo (como a Roaunet), que privilegia determinados grupos e pessoas que muitas vezes investem em projetos corrosivos a cultura popular brasileira. São espetáculos que defendem ideais mercantilistas e ideológicas ou que traduzem um Brasil sem problemas sociais e que jamais investem em produções que falem da realidade das comunidades locais. Essas leis de incentivo acabam transformadas em instrumentos burocráticos, antidemocráticos, torna inacessível a participação da cultura popular, inviabiliza, muitas vezes a formação de artistas populares como atuantes do próprio processo estético e criativo e inabilita escritores, artistas plásticos, do circo, da capoeira e do Teatro Popular. César Vieira, do TUOV, acredita que “o Teatro Popular necessita do incentivo de programas permanentes, com projetos de continuidade e não apenas projetos que visem um festival, a inauguração de um teatro, mas dentro de uma política cultural diversificada e de continuidade, estando de acordo com as necessidades brasileiras de cada região. A cultura de São Luís do Maranhão, por exemplo, é completamente diferente da cultura de Porto Alegre, e tem de ser amparada dentro das suas necessidades”.
Recentemente, algumas iniciativas têm contribuído para a legitimação da cultura popular. Exemplo é o movimento Arte contra a Barbárie que, advindo do teatro, espalhou para as artes plásticas, o cinema e o circo. Na sua concepção é pregado que as atenções para o teatro não podem ser direcionadas somente aos grandes eventos, ou para pessoas privilegiadas econômica e culturalmente. Esse movimento fomenta a valorização da cultura participativa.

Asdrúbal Serrano

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